segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Paixão

Ele entrou em meu corpo
como fosse o senhor:
corre em meu sangue...
...e o faz ferver!

Penetra em meus músculos
e os tange
como um afiado violonista...

Perco o poder sobre mim...
não sei se é
meu começo...
...ou se é meu fim.

Amiga

A Morte me toca,
me chama,
me vê.

Sinto um pedaço
em mim
de todos os que se foram.

A tristeza
do que vai...
...sem volta.

A certeza de vir, um dia,
um raio de luz,
um caminho de Deus...
...novo sopro de vida.

É a morte que vem,
que me deixa saudades,
que me faz tão sentida,
que me liga a você...

Só lembranças...

      Já não havia nada ... nem sequer a lembrança do teu sorriso.
      Eu nunca cheguei a perceber a falta que me fazias.
      Restava somente a tênue lembrança de um olhar muito azul, de uma altura tão alta, mas tão alta, que eu, em minha pequenez, o julgava o maior homem do mundo.
      Tua voz se apagou nos anos, longos anos de ausência forçada, ausência imposta e nem mesmo a tua voz grave, nos constantes momentos de brigas, eu consigo lembrar...
      E o tempo passou...
      Seguidos anos de lutas, lazeres, alegrias, estagnações e reviravoltas.
      Um dia, quando já nem mais ousava te esperar...tu chegaste. Não pessoalmente, como era o desejado, vieste através de uma carta, uma simples carta, tentando compensar tantos anos de tua falta.
      Por tua letra, imaginei teu físico: letra trêmula...físico desgastado; letra frágil...espírito inquieto; letra errada...um corpo sofrido: tudo era a confirmação do que eu pensava de ti. A cada parágrafo via tua imagem tentando apagar um passado que, por tua causa, fora tão infeliz; teu remorso se mostrava a cada traço e tua vontade de ver-me, tomar-me em teus braços, era tão sincera que compensava tantos anos de sofrimento.
      Passou-se um ano:eu ainda sem te ver.
      Apenas algumas cartas esparsas traziam para mim a certeza do teu amor, enquanto as minhas levavam para teu lado uma réstia de alegria, iluminando o noturno de tua vida.
      Um dia, um telefonema, uma voz amiga, tentando um consolo que não tinha lugar: "...foi melhor assim...". E eu nunca achei tão idiota o estranho modo de consolar que os homens têm!
      Queria apenas um olhar, a mão amiga em meu ombro ... palavras seriam desnecessárias.
      Até hoje, passados tantos anos, não sei de que canto do meu peito veio aquele soluço. Soluço sentido, trazendo para fora todo o sentimento acumulado durante tanto tempo.
      Madrugada, foi preciso a viagem ... estavas muito longe.
      Não me lembro de quantas horas durou, lembro apenas que, ao lado do carro veloz, os postes, mais velozes ainda, corriam paralelos a mim: e eu sabia que, ao fim deles, tu me estarias esperando.
      Teus olhos estariam lá, porém, fechados: eu não mais veria aquele azul; teus braços estariam lacrados, incapazes para o meu abraço. Teus lábios, cerrados, estariam proibidos de me sorrir; teu corpo tão grande estaria estático, incapaz de me carregar e de se movimentar, dando a impressão de querer alcançar as estrelas.
      Viagem longa, tristeza e uma música que, longínqua, trazia a realidade: ..."ruas, estradas, curvas, sou despedida por entre lenços brancos de partida..."
      Havia curvas e, ao fim delas, tu me esperavas.
      Chegamos. Muitas flores, formol, teu corpo caído, teu corpo abatido, teu rosto fechado, teus dedos cruzados...
      Só me lembro que, entre tantas flores brancas, depositei entre teus dedos uma rosa vermelha com um beijo meu.
      Ela era a única rosa vermelha entre o mundo de flores brancas postas sobre teu corpo.
      Cortejo, estrada, pedras, urna, lágrimas, sol brilhante, coração morto, cova, terra, flores, velas ... você.
      Já não quero lembrar... sei apenas que estás no alto de uma serra de onde podes contemplar toda a terra que nos viu juntos num tempo que está perdido no início de um tempo que poderia ter sido feliz.
      Hoje, meu pai, estou sozinha; mas sei que das sombras tu me dás toda a proteção que a vida não quis que me desses...no início de um mundo perdido.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pureza

Na curva escura do dia
que o medo faz mais incerta -
- eu te achei.

Na grota funda dos mares
onde o azul se torna escuro-
- te encontrei.

No ponto alto da Terra
- onde o ar se chama Céu -
- lá estavas.

No mais profundo da vida
onde não existem Homens -
- me esperavas.

No mais recôndito em mim
onde só, bem só, vagava -
- me encontraste.

E o medo que havia aqui,
com tua chegada branca -
- dissipaste!

Caminhos de Voltar

Volto...
Não escuto ninguém atrás de mim.
Mas volto!
Mais triste...
mais só...
E volto...

Nós

Noite - festa
luzes - som.
Carnaval!

Gente - gritos
risos - corpos.
Sensual!

Mar - escuro
luzes - sombra.
Carnaval!

Beijos - gestos
sonhos - fuga.
Sensual!

Tédio - escuro
gente - morte
Carnaval!

Mãos - quentura
sono - paz
Sensual!

Rosagem

No rosa claro do quarto escuro
os nossos sonhos vagavam longe.
No eterno mundo de alguns amores
distantes, vagos, sempre presentes.

Nossos anseios voam distantes...
buscam sorrisos que se perderam
no quarto negro do mundo escuro.

Na escura noite do quarto rosa
não há presente - não há futuro:
- há coisas findas que já findaram,
- há sonhos verdes que já murcharam,
- há risos fáceis que se apagaram.

No quarto rosa é de manhã.
Céleres voltam os nossos sonhos.
Já há futuro, que aguardamos,
há um presente, que preparamos,
há um passado que se perdeu -
no quarto rosa que era escuro...
mas muito claro amanheceu...

Senhora do Mar

Sou dona do mar
do mar que arrebenta,
do mar que soluça,
que geme, lamenta,
me fere, me leva,
me traz para amar.

Sou dona do mar,
do mar inconstante,
que calma aparenta
em seu verde mar,
que pulsa revoltas
em meu verde olhar.

Sou dona do mar
em noites de lua,
em noites de vento,
em noites de paz,
sou forte, sou grande,
sou dona do mar.

Sou dona do mar...
do mar que me arrasa,
do mar que me arrasta,
me leva, derruba,
me faz poderosa
rainha do mar.

Sou dona do mar,
do mar que me vê
bem triste ou alegre;
do mar que traz paz,
do mar que me ensina
a esperar por você.

Sou dona do mar:
-sou leve espuma,
-sou onda revolta,
-sou verde-azulado,
-sou frágil e forte,
-eu sou este mar!




Cigano

Teu rosto moreno,
moreno cigano.
Teu rosto dourado,
teus olhos que enganam.

Me vejo em teus olhos
e tu não me vês.
Ouço tua voz
mas tu não me falas.

Indiferente e só.
Tímido ou calado?
Queria há mais tempo
ter-te encontrado.

Queria ter-te ensinado a sorrir,
a brincar, a me amar.
Queria viver contigo:
campos verdes, flores vivas,
vida livre, corpos soltos.
Água, terra, vento e sol:
elementos te completam.

E a tua cor dourada,
e o teu jeito calado,
e teu sorriso impreciso,
e o teu olhar fechado
iriam te transformar
num homem apaixonado.

Serias, então, cigano,
homem puro, homem livre;
e eu, mulher ao teu lado,
iria realizar-me
por ver teu rosto profundo,
por ver teu rosto calado,
abrir-se para o meu mundo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Um dia ...

Que adianta querer mostrar-lhes o verdadeiro sentido da vida?                                                                      Eles são gente grande, não sabem o que há em nossos corações: pessoas frias, inquietas que, de há muito, perderam a confiança no mundo. Eles não me preocupam; talvez, apenas, queiram mostrar-me o inevitável, mas, o que fazer se não aceito os  fatos desse modo? Então, transformam-se, e de conselheiros passam a carrascos que não querem perdoar uma diferença de quatro  anos. Nós sofremos; não por sentirmos que, em nós, arrefeceu a vontade de lutar; não por sentirmos que vamos fraquejar, e sim, por vermos que, quem nos ama, a um simples obstáculo cronológico, passa a mostrar-nos o preço da casa, ao invés dos gerânios na janela; o tamanho descomunal de uma estrela, ao invés de seu brilho; os dentes de leite que estão cainda, ao invés do inocente sorriso infantil...  Por que acham que devemos fraquejar se nós sabíamos que, um dia, nos encontraríamos? Não  importa se aconteceu agora, importa-me, isto sim, a certeza de que te amo.         Talvez, um dia, ao fim de tudo, eu já nem mesmo saiba sorrir:  não me importa, enquanto conheci a alegria, havia você ao meu lado.                                                                                                                             Com o tempo, bem distante de ti, talvez narre para amigos uma história de "Era uma vez...". Um conto de fadas; nessa história falarei de um homem, de uma mulher, de um amor irrealizado que, como tantos outros nessa situação, ultrapassa o limite do humano, tornando-se um mito; falarei do tempo em que, juntos, encararam o mundo, venceram barreiras, ultrapassaram preconceitos; mas, o fim, Amor, não lhes direi com detalhes: será, para sempre, uma história incompleta...                                                                                   E quem me olhar compreenderá, no brilho de meus olhos, o significado daquela lágrima ... e chorará comigo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Encontro

No peito ... o mesmo desejo;
no corpo ... o mesmo calor;
no olhar ... certo receio;
na boca ... aquele torpor.

No olhar .. inquieta busca;
no falar ... grande fervor;
na procura ... um desejo;
no encontro ...aquele amor!

Cego?

Dizem que o amor é cego.
Não acredite, meu bem;
como pode ele ser cego
se eu te enxergo tão bem?

O Relógio

Enquanto te escrevo observo o relógio.
- Já não quero vê-lo: o seu tic-tac
veio tornar mais triste esta noite.

Solidão

A noite tem estrelas...
...a tua foto sorri.
Estou no mesmo lugar...
...por que não estás aqui?

Um sorriso

Procura-se um sorriso...
eu o perdi esta noite
e suas características
são as covinhas de lado
e o olhar que sempre pisca 
quando ri de um certo agrado.

Procura-se meu sorrir
perdido por não te ver.
Procura-se...e é tão vago
o indício que possuo...
que já não procuro achá-lo
ao fim desta noite escura.

Procura-se meu sorriso.
Quem o encontrar, por favor,
devolva-o sem demora:
é que a semana já finda
e ao fim deste dissabor
terei em meus lábios, rindo,
o riso do meu amor.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Olhares

Perdi-me num falso olhar
que dizia coisas falsas.
Era um olhar cristalino
que me fez sorrir de novo;
era um olhar irreal
que não dizia verdades...
Era um olhar que, só hoje,
descobri ser de amizade.

E o sonho se esfumou
pelo ar...feito fumaça...
E o sonho terminou:
mas a saudade não passa!

Saudades daquele olhar
que dizia coisas falsas.
Saudades daquele olhar
que não dizia verdades.
Saudades de um olhar...
...que era só de amizade...