Já não havia nada ... nem sequer a lembrança do teu sorriso.
Eu nunca cheguei a perceber a falta que me fazias.
Restava somente a tênue lembrança de um olhar muito azul, de uma altura tão alta, mas tão alta, que eu, em minha pequenez, o julgava o maior homem do mundo.
Tua voz se apagou nos anos, longos anos de ausência forçada, ausência imposta e nem mesmo a tua voz grave, nos constantes momentos de brigas, eu consigo lembrar...
E o tempo passou...
Seguidos anos de lutas, lazeres, alegrias, estagnações e reviravoltas.
Um dia, quando já nem mais ousava te esperar...tu chegaste. Não pessoalmente, como era o desejado, vieste através de uma carta, uma simples carta, tentando compensar tantos anos de tua falta.
Por tua letra, imaginei teu físico: letra trêmula...físico desgastado; letra frágil...espírito inquieto; letra errada...um corpo sofrido: tudo era a confirmação do que eu pensava de ti. A cada parágrafo via tua imagem tentando apagar um passado que, por tua causa, fora tão infeliz; teu remorso se mostrava a cada traço e tua vontade de ver-me, tomar-me em teus braços, era tão sincera que compensava tantos anos de sofrimento.
Passou-se um ano:eu ainda sem te ver.
Apenas algumas cartas esparsas traziam para mim a certeza do teu amor, enquanto as minhas levavam para teu lado uma réstia de alegria, iluminando o noturno de tua vida.
Um dia, um telefonema, uma voz amiga, tentando um consolo que não tinha lugar: "...foi melhor assim...". E eu nunca achei tão idiota o estranho modo de consolar que os homens têm!
Queria apenas um olhar, a mão amiga em meu ombro ... palavras seriam desnecessárias.
Até hoje, passados tantos anos, não sei de que canto do meu peito veio aquele soluço. Soluço sentido, trazendo para fora todo o sentimento acumulado durante tanto tempo.
Madrugada, foi preciso a viagem ... estavas muito longe.
Não me lembro de quantas horas durou, lembro apenas que, ao lado do carro veloz, os postes, mais velozes ainda, corriam paralelos a mim: e eu sabia que, ao fim deles, tu me estarias esperando.
Teus olhos estariam lá, porém, fechados: eu não mais veria aquele azul; teus braços estariam lacrados, incapazes para o meu abraço. Teus lábios, cerrados, estariam proibidos de me sorrir; teu corpo tão grande estaria estático, incapaz de me carregar e de se movimentar, dando a impressão de querer alcançar as estrelas.
Viagem longa, tristeza e uma música que, longínqua, trazia a realidade: ..."ruas, estradas, curvas, sou despedida por entre lenços brancos de partida..."
Havia curvas e, ao fim delas, tu me esperavas.
Chegamos. Muitas flores, formol, teu corpo caído, teu corpo abatido, teu rosto fechado, teus dedos cruzados...
Só me lembro que, entre tantas flores brancas, depositei entre teus dedos uma rosa vermelha com um beijo meu.
Ela era a única rosa vermelha entre o mundo de flores brancas postas sobre teu corpo.
Cortejo, estrada, pedras, urna, lágrimas, sol brilhante, coração morto, cova, terra, flores, velas ... você.
Já não quero lembrar... sei apenas que estás no alto de uma serra de onde podes contemplar toda a terra que nos viu juntos num tempo que está perdido no início de um tempo que poderia ter sido feliz.
Hoje, meu pai, estou sozinha; mas sei que das sombras tu me dás toda a proteção que a vida não quis que me desses...no início de um mundo perdido.
Eu nunca cheguei a perceber a falta que me fazias.
Restava somente a tênue lembrança de um olhar muito azul, de uma altura tão alta, mas tão alta, que eu, em minha pequenez, o julgava o maior homem do mundo.
Tua voz se apagou nos anos, longos anos de ausência forçada, ausência imposta e nem mesmo a tua voz grave, nos constantes momentos de brigas, eu consigo lembrar...
E o tempo passou...
Seguidos anos de lutas, lazeres, alegrias, estagnações e reviravoltas.
Um dia, quando já nem mais ousava te esperar...tu chegaste. Não pessoalmente, como era o desejado, vieste através de uma carta, uma simples carta, tentando compensar tantos anos de tua falta.
Por tua letra, imaginei teu físico: letra trêmula...físico desgastado; letra frágil...espírito inquieto; letra errada...um corpo sofrido: tudo era a confirmação do que eu pensava de ti. A cada parágrafo via tua imagem tentando apagar um passado que, por tua causa, fora tão infeliz; teu remorso se mostrava a cada traço e tua vontade de ver-me, tomar-me em teus braços, era tão sincera que compensava tantos anos de sofrimento.
Passou-se um ano:eu ainda sem te ver.
Apenas algumas cartas esparsas traziam para mim a certeza do teu amor, enquanto as minhas levavam para teu lado uma réstia de alegria, iluminando o noturno de tua vida.
Um dia, um telefonema, uma voz amiga, tentando um consolo que não tinha lugar: "...foi melhor assim...". E eu nunca achei tão idiota o estranho modo de consolar que os homens têm!
Queria apenas um olhar, a mão amiga em meu ombro ... palavras seriam desnecessárias.
Até hoje, passados tantos anos, não sei de que canto do meu peito veio aquele soluço. Soluço sentido, trazendo para fora todo o sentimento acumulado durante tanto tempo.
Madrugada, foi preciso a viagem ... estavas muito longe.
Não me lembro de quantas horas durou, lembro apenas que, ao lado do carro veloz, os postes, mais velozes ainda, corriam paralelos a mim: e eu sabia que, ao fim deles, tu me estarias esperando.
Teus olhos estariam lá, porém, fechados: eu não mais veria aquele azul; teus braços estariam lacrados, incapazes para o meu abraço. Teus lábios, cerrados, estariam proibidos de me sorrir; teu corpo tão grande estaria estático, incapaz de me carregar e de se movimentar, dando a impressão de querer alcançar as estrelas.
Viagem longa, tristeza e uma música que, longínqua, trazia a realidade: ..."ruas, estradas, curvas, sou despedida por entre lenços brancos de partida..."
Havia curvas e, ao fim delas, tu me esperavas.
Chegamos. Muitas flores, formol, teu corpo caído, teu corpo abatido, teu rosto fechado, teus dedos cruzados...
Só me lembro que, entre tantas flores brancas, depositei entre teus dedos uma rosa vermelha com um beijo meu.
Ela era a única rosa vermelha entre o mundo de flores brancas postas sobre teu corpo.
Cortejo, estrada, pedras, urna, lágrimas, sol brilhante, coração morto, cova, terra, flores, velas ... você.
Já não quero lembrar... sei apenas que estás no alto de uma serra de onde podes contemplar toda a terra que nos viu juntos num tempo que está perdido no início de um tempo que poderia ter sido feliz.
Hoje, meu pai, estou sozinha; mas sei que das sombras tu me dás toda a proteção que a vida não quis que me desses...no início de um mundo perdido.
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